Book Reviews

04 agosto, 2008

197) O Pacto de Varsovia: quem se lembra?

Resenha de livro, neste link.

A Cardboard Castle?: An inside history of the Warsaw Pact
Vojtech Mastny e Malcolm Byrne
2005

Por Flávio Augusto Lira Nascimento, 16/7/2008


Publicado em 2005 por Vojtech Mastny e Malcolm Byrne, “A Cardboard Castle? An inside history of the Warsaw Pact” é uma obra que se destaca por sua ousadia e bom planejamento ao fornecer ao leitor uma alta gama de materiais de boa qualidade. Publicado pela Central European University Press, a proposta do livro é levar ao público documentos dos arquivos de países-membros do Pacto de Varsóvia durante a Guerra Fria. Apesar de os arquivos de Moscou seguirem fechados à consulta pública até hoje, a utilização das atas e documentos de reuniões do Pacto presentes nos arquivos oficiais de seus ex-satélites dá um grande panorama da funcionalidade do bloco.

A Guerra Fria é vista como um momento singular na história, pois foi um período durante o qual duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, foram capazes, pela primeira vez na história, de se enfrentarem com um risco de aniquilação total. Durante a Guerra Fria, que se iniciou durante a década de 1940 e perdurou por mais de quatro décadas, a oposição ideológica entre Moscou e Washington levou à criação de blocos que representavam essa divisão, em especial em solo europeu. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) foi criada em 1949 e o Pacto de Varsóvia, em 1955, constituído por União Soviética, Bulgária, Romênia, Albânia (até 1968), Polônia, Hungria, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental.

Para além da unidade que se percebia em relação ao bloco controlado por Moscou, os autores surpreendem ao mostrar, por meio de documentos, as dinâmicas internas que faziam com que as suas políticas não fossem tão monolíticas assim, ainda em se tratando dos governos aliados a Moscou. A análise pré-documental do livro pode ser vista em duas partes.

Primeiramente, e talvez mais ostensivamente, mostra-se as ações do Pacto de Varsóvia como contraponto às ações da OTAN. Os autores apresentam o desejo soviético, em especial durante a era de Krushov (1953-1964), de que se desmantelasse a OTAN antes mesmo da criação do bloco do leste. Isto não ocorreria e ainda após a criação do Pacto era claro o desejo, por parte de Moscou, de que ambos os grupamentos fossem desfeitos. Porém, a aposta de Moscou na desunião dos aliados atlânticos não era verificável. Conquanto a OTAN enfrentasse crises, como a retirada das forças francesas do comando militar da aliança em 1959 e os desentendimentos entre Grécia e Turquia sobre a questão cipriota em 1974, sua unidade ideológica, preponderantemente pautada em sua oposição à expansão da área de influência soviética, manteve-os unidos.

Em segundo lugar, apresentam-se as pressões sociais que levaram o Pacto de Varsóvia a ter uma dinâmica tão diferente da OTAN. A constante insatisfação das populações dos países-membros levavam a inquietudes como as observadas na Hungria (1956) e na Tchecoslováquia (1968), as quais foram suprimidas por forças do Pacto. Intervenções de países-membros do bloco em outros países-membros não condiziam com o próprio Tratado fundador do Pacto, e as desculpas utilizadas por Moscou para a intervenção são tão interessantes quanto os documentos dos países a serem invadidos clamando pela não-intervenção. A contraposição de documentos é outro caráter interessante da obra, que os dispõe de forma cronológica.

Quanto aos documentos traduzidos para o inglês, eles não apenas se referem a atas de reuniões ou descrições de operações militares do Pacto, mas também às interações entre centro e satélites. Durante a crise húngara, Imre Nagy foi rápido ao enviar suas condições de que não se contraporia a Moscou, apesar de desejar se retirar do bloco. O mesmo com os acontecimentos de Praga em 1968. A obra expõe tais documentos cronologicamente, mas também de uma maneira causal, para que se entenda, a partir de cada um deles, no que resultou cada ação descrita. Os comentários e visões dos autores, focados nas tentativas perenes de Moscou de salvaguardar sua preponderância, são percebidos, mormente, na introdução histórica do livro, sendo que as intervenções nos documentos são feitas por notas de rodapé, mais ou menos discretas.

O ineditismo de um livro que compila os documentos mais relevantes para a compreensão do bloco do leste na Guerra Fria faz com que entendamos mais a fundo o comportamento político-militar dos países leste-europeus: desde a teimosia da Romênia de Ceauşescu, que fazia de suas desobrigações um mantra para divergir de Moscou, até o comportamento oportunista da Alemanha Oriental ao defender o bloco sempre que possível, disputando com a Polônia a preferência de Moscou. Isto mostra a falácia em se afirmar um comportamento comum do bloco; se este existia, era porque as decisões de Moscou eram sempre de última instância. As discrepâncias entre seus países-membros sempre foram presentes.

O ponto fraco do livro, contudo, é a grafia. Erros de digitação e de inglês não são poucos, e isto compromete, em alguma medida, a confiabilidade do material. Em se tratando de documentos, isto traz um risco a leitores que não podem pesquisá-los em suas línguas originais. Estudantes do tema que não têm domínio dos idiomas da Europa do Leste encontram apenas neste livro, atualmente, a oportunidade de entrar em contato com tais fontes. Sendo esta a primeira edição, porém, espera-se que tais problemas sejam sanados futuramente.

Um ponto negativo talvez de maior impacto, mas que foge às possibilidades dos editores, são os arquivos de Moscou. Embora as decisões dos blocos resultassem em documentos que seriam guardados pelos governos de cada país-membro, é intrigante pensar que havia uma absoluta distribuição de material entre os membros. A relutância de Moscou em abrir seus arquivos ao público pode ser uma prova disso, e resta a dúvida se bases relevantes ainda se encontram a sete chaves.

Os autores apóiam, pela leitura que se faz, a existência da OTAN e a utilização da história do Pacto de Varsóvia como um estudo de um caso mal-sucedido. Pretende-se que a derrocada do bloco de defesa do leste, juntamente com a União Soviética em fins da década de 1980 e início da década de 1990, sirva de alerta para que a OTAN seja a mais inclusiva e participativa possível, apesar da preponderância dos Estados Unidos.

Vojtech Mastny é membro-sênior do National Security Archive, coordenando o “Parallel History Project on NATO and the Warsaw Pact” (PHP), que busca uma nova visão acerca dos dois blocos antagônicos durante a Guerra Fria. Entre sua extensa bibliografia, destacam-se “War Plans and Alliances in the Cold War: Threat Perceptions in the East and West” (CSS Studies in Security and International Relations, 2006), “The Cold War and Soviet Insecurity: The Stalin Years” (Oxford University Press,1998) e “The Helsinki Process and the Reintegration of Europe: Analysis and Documentation” (New York University Press, 1992). “A Cardboard Castle?” é uma boa seqüência para um autor que fez dos estudos de segurança européia sua razão acadêmica.

Malcolm Byrne é diretor de pesquisa também do National Security Archive, no qual coordena acadêmicos russos e leste-europeus em pesquisas documentais. É autor de “The 1956 Hungarian Revolution: A History in Documents” (CEU Press, 2003), “From Solidarity to Martial Law: The Polish Crisis of 1980-1981: a Documentary History” (id., 2008).

A união de dois autores com forte experiência acadêmica na área de estudos de segurança leste-européia é bem-sucedida ao irradiar uma nova luz sobre as empoeiradas visões que se tem da Guerra Fria e de seus atores. Fugindo da clássica e enviesada análise que faz de Moscou o único centro pensante no bloco comunista, percebe-se uma fluidez que, embora não se refletisse em políticas efetivas de defesa (as quais eram sempre únicas), delineava diversas decisões tomadas por Moscou e, como corolário, pelo bloco. Uma leitura altamente recomendada a todos que seguem a história da Europa Oriental, seus problemas de defesa e segurança antigos e atuais, suas relações com a Rússia e, como contraponto, o atual afã de muitos ex-membros do Pacto de Varsóvia que têm entrado para a OTAN.

Flávio Augusto Lira Nascimento, bolsista da CAPES, é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais San Tiago Dantas (Unesp/Unicamp/Puc-SP). E-mail.

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