Book Reviews

13 setembro, 2007

142) Escapando da prisão malthusiana

Quando o homem deixou de ser um animal?
Fernando Reinach*
O Estado de São Paulo, 13 setembro 2007

A propósito do livro de
Gregory Clark:
A Farewell to Alms
Princeton University Press, Princeton, 2007

Quando o homem deixou de ser um animal? Quando descobrimos o fogo ou ao perceber que éramos mortais? As respostas variam, mas, em um livro recém-publicado, Gregory Clark argumenta que o homem deixou de viver como um animal somente quando se livrou da "armadilha Malthusiana", o que teria ocorrido por volta de 1800.

É um conceito bem conhecido em Biologia. Malthus foi o primeiro a compreender a dinâmica das populações e sua interação com o ambiente. Suas idéias influenciaram Marx e Darwin. Para Malthus, cada espécie se reproduz o mais rápido possível, limitada por fatores ambientais, como falta de alimento ou predadores. Leões e gazelas são prisioneiros dessa armadilha. Se as gazelas aumentam em número, fica mais fácil para o leão caçar e a população de leões aumenta. O leão nunca gasta menos tempo caçando por existirem mais gazelas ou por ter descoberto um outro método de caça. Quando isso ocorre, o período de vacas gordas dura pouco tempo, pois rapidamente essa nova vantagem se transforma em um aumento da população de leões.

No caso dos seres humanos, novas tecnologias, como o fogo e a agricultura, poderiam ter tornado a vida mais fácil. O que Clark demonstra é que, até 1800, cada tecnologia descoberta pela humanidade foi imediatamente convertida em aumento da população e não em melhora na qualidade de vida. Em outras palavras, até 1800, o homem vivia preso à "armadilha Malthusiana" do mesmo modo que qualquer outro ser vivo.

Entre a enorme quantidade de dados quantitativos obtidos por Clark, um bom exemplo é a comparação de sociedades muito primitivas, como os !kung africanos ou os ianomâmis brasileiros, que vivem quase sem tecnologia, com os camponeses ingleses de 1300 e a população urbana de Londres em 1750. Clark demonstra que essas três populações, apesar de dominarem tecnologias totalmente diferentes, tinham basicamente as mesmas condições de vida. Consumiam as mesmas calorias por dia, gastavam o mesmo número de horas para obter alimentação e não acumularam bens de uma geração para outra.

Clark demonstra que a população pobre de Londres viveria melhor se pudesse se mudar para a Amazônia, entre os ianomâmis. Todo o desenvolvimento tecnológico ocorrido entre 1300 e 1800 provocou um aumento da população sem que tenha havido uma melhora na qualidade de vida. As limitações do meio ambiente eram tantas que o crescimento populacional entre 130 mil anos antes de Cristo (população humana estimada em 100 mil pessoas) até 1800 (770 milhões) pode ser explicado assumindo-se que, nesse período, cada mulher teve, em média, 2,07 filhos que sobreviveram até a idade reprodutiva.

Clark argumenta que, durante esse período, nossa população foi controlada unicamente por fatores ambientais, tal qual qualquer animal. É a "armadilha Malthusiana" em ação.

Para ele, somente nos últimos 200 anos nos libertamos da "armadilha" e deixamos de ser realmente animais. O resultado é que hoje temos mais de 6 bilhões de pessoas no planeta e, enquanto nos países ricos temos epidemias de obesidade, nos países pobres as pessoas vivem pior que nas sociedade primitivas. A questão é saber se fez bem à humanidade ter conseguido se libertar da "armadilha Malthusiana". O livro promete causar polêmica.

Mais informações em Gregory Clark, A Farewell to Alms, Princeton University Press, Princeton, 2007.

* Biólogo (fernando@reinach.com)

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