Book Reviews

12 agosto, 2007

135) A America antes de Colombo

América redescoberta
Alexandre Staut
Gazeta Mercantil, Fim de Semana, São Paulo, 10 de Agosto de 2007, p. 8

A América antes da chegada de Colombo, ao contrário do que se pensou até hoje, era formada por sociedades dinâmicas, diversificadas e bastante populosas. No século XIII, havia mais pessoas vivendo no continente americano do que na Europa.

Charles C. Mann
1491: Novas Revelações das Américas Antes de Colombo
Rio de Janeiro: Objetiva, 2007

A América antes da chegada de Colombo, ao contrário do que se pensou até hoje, era formada por sociedades dinâmicas, diversificadas e bastante populosas. No século XIII, havia mais pessoas vivendo no continente americano do que na Europa. Tenochtitlán, a capital asteca, tinha maior população do que qualquer cidade européia contemporânea. Os aglomerados urbanos da época eram opulentos e, em sua simples elegância, teriam agradado aos mais exigentes arquitetos e urbanistas modernistas. Possuíam água corrente e rede de esgotos, jardins botânicos e eram ecologicamente corretos. Os índios pré-colombianos do México foram os precursores da engenharia genética. Povoados amazônicos prosperavam antes de os egípcios terem construído suas pirâmides. Estas revelações, entre muitas outras, estão no livro "1491 - Novas Descobertas sobre as Américas antes de Colombo", do jornalista e escritor americano Charles C. Mann, que acaba de ser lançado no Brasil.
As pesquisas de Mann começaram na década de 80, por acaso, quando viajou ao México, a convite da Nasa, para acompanhar o monitoramento dos níveis atmosféricos de ozônio na região. A viagem rendeu um artigo à revista Science, mas, num dia de folga, Mann foi visitar a ruína maia de Chichén Itzá, em Yucatán, fato que lhe despertou o interesse pela produção cultural local anterior ao século XV.
Na década seguinte à viagem, buscou respostas sobre a Américas pré-colombiana, até que se frustrou ao folhear os livros didáticos de seu filho, que traziam as mesmas crenças que viu em sua época de colégio.
Todo livro se baseia em outro livro, diz o provérbio. Assim, o volume de Mann sustenta hipóteses muito estudadas por arqueólogos e antropólogos. Todavia, o autor fez uma imersão pelos confins do continente, durante quase uma década, para escrever sua obra. Foram centenas de entrevistas, visitas a museus e comunidades rurais, nas quais esbarrou muitas vezes no silêncio, principalmente pela ausência de documentos escritos das culturas pré-colombianas, a maioria destruída por espanhóis e portugueses.
Muito do que relata no seu livro, baseia-se na história oral de remanescentes de culturas milenares das Américas. Mann, porém, evita um estudo cronológico e sistematizado. Este talvez seja o ponto alto do seu estudo. Escrito em estilo de "narrativa real", ou seja, com técnicas do jornalismo literário, o volume seduz ao trazer o fato histórico encadeado a narrações sobre personagens nunca citados pela história oficial (veja alguns exemplos abaixo).
Contra uma propaganda que continua a celebrar um índio puro e nômade, Mann mostra que foi em cidades-Estado que populações pré-colombianas começaram a se organizar. Ele cita que a Revolução Neolítica ocorrida no Oriente Médio - na qual se inclui a invenção da agricultura, da roda e de utensílios de metal - teve versão quase que simultaneamente nas Américas. O autor ainda cita outras façanhas realizadas no continente americano, como o estabelecimento de redes de comércio, mapeamento de órbitas de planetas, um calendário de 365 dias mais preciso do que aquele criado por seus contemporâneos europeus, além de registros históricos em livros dobrados em sanfonas, feitos de papel fabricado a partir de casca de figueira.
Mas por que a História foi tão discrepante para com a população deste continente? Como uma cultura sofisticada intelectualmente como a Maia, por exemplo, dividida em 12 reinos e cidades-Estado, numa organização mais promissora do que aquelas da Alemanha no século XVII, desapareceu num piscar de olhos?
Mann mostra que a principal causa do desastre histórico foram as doenças trazidas pelos europeus. Tais pestes varreram o continente, assim como certas epidemias assolaram Atenas em 430 d.C.. "Foi tão abrangente o apagamento que, em poucas gerações, nem conquistador nem conquistado sabiam que aquele mundo tinha existido", afirma o autor. Ele assinala que, assim que se instalaram aqui, os europeus trataram de dar um rumo ao fluxo narrativo conforme a civilização européia, enterrando tesouros criados pelos americanos, como por exemplo um sistema de escrita inca realizada por meio de nós em cordas e tecidos, que poderia ser muito bem um tipo rudimentar de computador.
Mann diz que a versão empobrecida da história dos habitantes pré-colombianos acabou se perpetuando graças a um autor que se tornou ícone quando se estuda o período, Allan R. Holmberg, "pesquisador cuidadoso, compassivo", que, entre 1940 e 1942, viveu entre os índios Beni, na Bolívia, publicando em 1950 o clássico "Nomads", um texto muito influente que se tornou referência quando se pesquisa índios sul-americanos.
Holmberg diz em seu estudo que estes povos estavam entre os mais atrasados do mundo. Fala que sua concepção de universo estava quase que completamente informe. Enfim, uma cultura sem arte, religião ou instrumentos musicais.
A partir do que chamou de "Erro de Holmberg", Mann começa uma narrativa surpreendente de uma visita que fez à Bolívia junto aos arqueólogos Clark Erickson e William Balée. Escavações na região atestam que, além de construírem estradas, caminhos elevados, canais, diques, reservatórios, montes, campos agrícolas elevados, os habitantes chegaram a criar até mesmo quadras esportivas. Uma sociedade moralmente obrigada a empreender, ao mesmo tempo que se esforçava para cuidar da natureza, diz o autor.
Mann calcula que, nos primeiros 130 anos de contato com os europeus, 95% da população americana tenha morrido. O primeiro cálculo cuidadoso da densidade demográfica local teria sido feito em 1928 pelo etnógrafo James Mooney, que, passando um pente-fino em documentos coloniais, concluiu que, antes de 1491, a América do Norte tinha 1,15 milhão de habitantes. Só no planalto central mexicano vivia uma população de 25,2 milhões de pessoas, em contraste com Portugal e Espanha que, somadas, na época, apresentavam 10 milhões de pessoas.
Segundo uma estimativa das Nações Unidas de 1999, a população da terra no começo do século XVI seria de 500 milhões de pessoas. A doença trazida pelos europeus - entre as quais, varíola e sífilis - matou mais de 100 milhões aqui nas Américas.
Em seu livro, o autor lamenta que não tivesse tido tempo de pesquisar o Nordeste do Brasil. Bem, a leitura do livro deixa mesmo um ponto de interrogação sobre detalhes da produção cultural na região. Ele, porém, esteve na Ilha de Marajó, recentemente habitada por 100 mil habitantes, e que teria sido habitada por mais de 400 mil pessoas no ano 1000 d.C., o que faria do local um dos maiores centros populacionais da Terra na época. Outra revelação sobre o Brasil mostra que, anos antes da descoberta das Américas, a foz do Amazonas era superpovoada. E os habitantes da região haviam desenvolvido um sistema de cultivo de árvores, uma espécie de agrosilvicultura sem qualquer semelhança com a agricultura praticada na Europa, Ásia e África. Prática que tem acarretado uma corrida de cientistas do mundo todo.
Já que a História tem sido escrita desde o século XII, enfatizando culturas que mais intriguem os leitores, com capítulos sobre a China, o Japão, a Índia, a Pérsia, a França, talvez seja o momento de tirar o chapéu para as realizações científicas e artísticas dos povos pré-colombianos, das quais muitas permaneciam mofadas antes de serem reunidas neste livro de Mann.

Original:
1491 : new revelations of the Americas before Columbus / Charles C. Mann.
Edition Information: 1st Vintage Books ed.
Published/Created: New York : Vintage, 2006.
Description: xiii, 541 p. : ill., maps ; 21 cm.
ISBN: 1400032059 (pbk.)

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