Book Reviews

12 julho, 2006

74) Inveja de boas bibliotecas...

Bibliotecas dão nova fama a Bogotá
Com 2 milhões de livros, o principal centro do país tem mais visitantes do que Masp, Pinacoteca e Mário de Andrade juntos.
Folha de São Paulo, 11.7.06 - pág. E10

Com outros projetos na área e grandes bibliotecas em construção, capital da Colômbia recebe título da Unesco por apoio à leitura.
Raul Juste Lores
da reportagem local

Com 2,7 milhões de visitantes por ano, a Biblioteca Luis Angel Arango, em Bogotá, é uma das mais visitadas do mundo. Recebe, em média, 9.000 pessoas diariamente. É mais do que a soma de visitantes de Masp (Museu de Arte de São Paulo), Biblioteca Mário de Andrade e Pinacoteca juntos por dia.
Mantida pelo Banco Central do país, ela tem 2 milhões de livros e capacidade para 2.000 leitores sentados. Nos últimos anos, a BLAA fez escola: a prefeitura local construiu outras megabibliotecas pela cidade e criou diversos programas de leitura que visam formar leitores em massa.
Tal empenho recebeu reconhecimento da comunidade internacional. A Unesco escolheu Bogotá como a primeira cidade latino-americana a ser Capital Mundial do Livro, título que ostentará em 2007. A Fundação Bill e Melinda Gates doou US$ 1 milhão para a rede municipal de bibliotecas e colabora com equipamentos tecnológicos para os centros.
Em visita recente a São Paulo, convidada pela Secretaria Municipal de Relações Internacionais, a diretora da BLAA, Ângela Pérez Mejía, esteve em São Paulo para falar de como as bibliotecas transformaram Bogotá e começam a mudar um país associado à guerrilha, narcotráfico e violência. Em palestra na Biblioteca Mário de Andrade, que passa por processo de modernização, Pérez Mejía falou que a capital colombiana deve muito aos novos espaços de convivência com livros.
Uma rede de ciclovias, de 300 quilômetros de extensão, e o sistema de ônibus articulados, em corredores, servem todas as grandes bibliotecas. “As bibliotecas ditaram os rumos do transporte público”, dia Pérez. Alguns dos maiores arquitetos colombianos trabalharam na criação das três novas megabibliotecas, como a Virgilio Barco, desenhada por Rogelio Salmona, e a El Tunal, adaptando antiga usina de tratamento de lixo, por Daniel Bermúdez.
Atualmente está em construção a quarta megabiblioteca municipal, na periferia de Bogotá, graças à doação de US$ 12 milhões feita pela família Santodomingo, a mais rica do país. Será inaugurada em 2008.

Livros ao vento
Um dos projetos que envolveu toda a cidade, além do numeroso público que freqüenta as bibliotecas, é o “Livros ao Vento”. A prefeitura local lança 70 mil exemplares, por edição, em versões de bolso de clássicos de Cortazar, García Márquez, Allan Pe, Tchecov, entre outros, e os distribui nos pontos de ônibus, gratuitamente. Na contracapa, um pedido: que ao terminar a leitura, o livro seja passado para outra pessoa ou deixado em outro lugar público. “Deixe que este livro voe”.
Outro projeto municipal utiliza postos de leitura, como estantes desmontáveis, que são instalados nos parques da cidade, com 300 livros cada um.
O interesse pelo livro também cresceu para além da capital colombiana. No interior, em plena floresta amazônica, existem os “biblioburros”, onde agentes culturais levam coleções ao lombo de burrinhos para emprestar livros nas localidades mais distantes. Também foram criadas pelo governo bibliotecas indígenas.

Entrevista
“Livros são um refúgio contra a violência”
da reportagem local

A professora de literatura e cinema latino-americanos Ângela Pérez Mejía, que foi professora da Universidades Brandeis, em Boston, dirige a Biblioteca Luis Angel Arango, a mais freqüentada da América Latina. Dependem da BLAA outras 16 bibliotecas pela Colômbia, mais uma sala de concertos, um museu numismático e a Coleção Botero, doada pelo famoso pintor colombiano, com quadros de Picasso, Klee, Bacon e Miro, entre outros, colecionados pelo mestre dos gordinhos nas últimas quatro décadas. Em entrevista à Folha, Pérez fala dos porquês de Bogotá se tornar um símbolo da democratização da leitura.

Folha – A senhora sente que as bibliotecas podem mudar a imagem da Colômbia, tão associada à violência?
Pérez – Não tenho provas científicas, mas não tenho dúvidas de que as bibliotecas ajudaram a mudar Bogotá. Nós, colombianos, temos vergonha de ser olhados no mundo como um país violento. Onde o futuro é tão incerto, a literatura vira um refúgio contra a violência, ela te oferece espaços para pensar que você pode mudar seu país. Nós nascemos na escassez, somos um país pobre. E nos surpreendemos em como a cultura pode mudar nossa realidade.

Folha – Em São Paulo, os grandes centros de convivência são os shoppings. A senhora falou que, em Bogotá, os shoppings não conseguem tirar público das bibliotecas. Como é possível?
Pérez – O espaço público em Bogotá é precário. As bibliotecas foram pensadas como espaço público comunitário. A arquitetura não é apenas para ler, é para se encontrar. Há muita luz, muito lugar confortável para ler. Pensamos em comunidades, não em indivíduos. É diferente das bibliotecas americanas. Claro que temos espaços silenciosos para estudar, mas queremos espaços que promovam encontros.
Investimos em arquitetura de qualidade, prédios que dão status ao ato de ler. Não são de portas fechadas. Elas são cercadas por espaços culturais, com que dialogam.

Folha – No Brasil, bibliotecas públicas são mais usadas para trabalhos escolares. Como transformá-las em centros culturais?
Pérez – Nosso objetivo tem sido de desescolarizá-las. Ler não porque é obrigação, mas pelo prazer, porque ler é divertido. Há programação de arte, de música. Bibliotecas sem orçamento para renovar suas coleções ou que respondem às necessidades de seus leitores perdem público. Quando há espaços públicos bons, as pessoas vão. Visitei o Centro Cultural São Paulo e estava cheio.

Folha – A BLAA foi fundada em 1958. Mas só nos últimos anos houve essa febre pelos livros. Quando houve a mudança?
Pérez – O país passou por programas de alfabetização muito bem-sucedidos nas últimas décadas. Temos 5% de analfabetos, um dos menores índices da região. Mas a resposta à mudança se chama continuidade. Não há políticas culturais que funcionem a curto prazo. O Banco de la República, que mantém a BLAA, é constante em seus investimentos e criou um público fiel. Sou a quarta diretora da BLAA, que tem 48 anos de existência. Meus antecessores ficaram, em média, mais de 15 anos no cargo.
Os governos municipais mantiveram a prioridade das bibliotecas nos últimos 12 anos, mesmo com prefeitos de partidos diferentes.
A BLAA, que não é municipal, colaborou para essa mudança, dando consultoria aos diferentes governos. Forças políticas distintas têm se unido em torno das bibliotecas do país.