Book Reviews

28 maio, 2006

46) Uma historia de destruicao de livros (Bagdá, 2003)

Trechos do livro História Universal da Destruição dos Livros, de Fernando Báez (tradução de Léo Schlafman; Ediouro; 438 páginas)

Capítulo VI

A situação das universidades iraquianas é crítica. Soube que depois do fatídico 8 de abril, grupos de saqueadores atacaram a Universidade de Bagdá e levaram tudo o que eram capazes de carregar. Inclusive trouxeram caminhões e fugiram com aparelhos de ar-condicionado, equipamentos de laboratório, arquivos, escrivaninhas, carteiras, cadeiras, computadores, impressoras, scanners, fotocopiadoras... Além disso, e como se tal grau de destruição não bastasse, todos os boletins estudantis, as teses e monografias, os certificados com títulos se perderam em meio à pilhagem e ao caos.

A violência ficou como marca indelével na memória dos estudantes. Alguns, ao contemplar seu centro de estudos incendiado, com as janelas quebradas e as paredes riscadas com lemas contrários a Saddam Hussein, lembram que no começo dos ataques um míssil caiu bem ao lado da universidade, embora pouco depois os americanos admitissem que se tratava de um erro. O buraco deixado no solo era semelhante ao de um meteorito.

Nas faculdades o panorama é desolador. Na de Línguas, a biblioteca com livros em russo e alemão, a maioria de autores clássicos como Dostoievski, Tolstoi, Turgueniev, Tchecov, Puchkin, Gorki, Goethe, é um monte de cinzas recolhido em sacolas. Um exemplar do Fausto, como observei, estava queimado nas bordas e o miolo mostrava sinais de páginas arrancadas à força e de danos causados pelo fogo intenso. Sem querer se identificar, uma linda jovem, coberta com um véu, afirmou-me que foram estudantes os que queimaram esses livros porque os russos e os alemães colaboraram com o ditador Saddam Hussein. Um caso estranho, de fato.

As disputas entre estudantes pela demissão de partidários do antigo regime e a possibilidade de haver eleições são dois dos temas mais acalorados. Quando visitei vários professores nenhum deles queria falar de outra coisa. Era óbvio que o ressentimento havia se apoderado de todos, e diversos papéis afixados nas paredes dos corredores informavam sobre as opiniões dos diferentes grupos. Chamou-me a atenção um que criticava os invasores e outro que contestava o papel anterior fazendo um relatório sobre a vida de seus

autores. Outro aspecto era o dinheiro dos salários e as bolsas. Muitos bolsistas que recebiam do exterior não podiam cobrá-las porque nenhum banco funcionava; dezenas de professores não recebiam desde a tomada de Bagdá e a raiva os mantinha em depressão permanente.

A Biblioteca de Medicina da Universidade Mustansiriya sobreviveu às primeiras tentativas de combate nos arredores, mas a Biblioteca Central de Mustansiriya não teve sorte e os saques foram indiscriminados. Um inventário preliminar nos permitiu saber que muitos livros desapareceram, assim como os móveis e os equipamentos doados há muito tempo. A biblioteca do Colégio de Médicos, que gozava de enorme prestígio porque possuía uma coleção com os melhores livros de medicina árabe medieval, foi saqueada, e o que pude encontrar demonstra a má intenção dos atacantes. Algumas lombadas no chão indicavam que o problema do peso levou os vândalos a arrancar os forros e as capas para apressar o transporte.

Um jovem da Universidade de Bagdá, que vive no bairro de Al-Mansur, me disse: "Algum dia alguém queimará a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, e não haverá tanta perda como a que houve aqui." Ao se considerar a importância cultural do Iraque se deve recordar que o país contém centenas de lugares declarados Patrimônio da Humanidade pela Unesco. Nessas terras se encontram Nínive, onde Assurbanipal governou; Uruk, onde foram encontradas as primeiras amostras de escrita; Asur, capital do império assírio; Hatra e Babilônia.

VII

A Bayt al-Hikma, ou Casa da Sabedoria, também foi atacada. Em 11 de abril, segundo constatei, foram destruídas as peças da exposição sobre o império otomano e uma parte do prédio, que se incendiou. Pela manhã os saqueadores nada deixaram de valor, mas voltaram à tarde, com mais determinação e certos de que o melhor estava oculto. Entre os lugares saqueados estão a gráfica, o salão de leitura e as bibliotecas. Provavelmente, a sala de leitura foi atacada com granadas, como revelam os estragos nas paredes. A seção de livros estrangeiros mostrava, quando cheguei, os sinais da pilhagem: estantes vazias e chão coberto de papéis rasgados. Entre outros, há catálogos que indicam a perda de mais de 5.500 volumes do Escritório Exterior do Reino Unido, cinco tomos de documentos franceses referentes à Primeira e à Segunda Guerra Mundial, documentos secretos dos Estados Unidos sobre o golpe de Estado de 1940, documentos sobre a comunidade judaica de Bagdá, 15 volumes sobre o período otomano, 15 volumes da corte de Mahkama Shar’ija e tomos da Enciclopédia Britânica. Entre os livros perdidos estariam um Corão do século IX, um exemplar do século XII de Maqamat al-Hariri, os textos mais importantes de Avicena, crônicas históricas, poemas e peças teatrais. Disseram-me que a algumas quadras adiante eram vendidos alguns desses livros, o que eu quis comprovar. De fato, aproximeime de um jovem de farto bigode que não hesitou em me oferecer seus livros, que coincidiam com os da Bayt al-Hikma.

No segundo andar, os incêndios foram desastrosos e nada havia que os saqueadores não tivessem levado: computadores, impressoras, lâmpadas, aparelhos de ar-condicionado, cadeiras, escrivaninhas, porta-lápis e móveis. A sala de concertos ficou irreconhecível. Numa das salas parecia ter estourado algum artefato. As estantes de metal, sem livros nem documentos, estavam queimadas, assim como as janelas e as paredes. Posteriormente, a CPA ofereceu 17 mil dólares para reconstruir a coleção, uma quantia irrisória que ignora o mais relevante: esse centro contava antes da guerra com setenta pessoas e quase cem contratados. De forma mesquinha, depois dos saques, ofereceu-se 20 dólares a cada trabalhador, o que gerou mais descontentamento do que alegria.

A Academia de Ciências do Iraque, ou al-Majma’ al-’Ilmi al-’Iraqi, um dos mais prestigiados centros de pesquisa do Oriente Médio, sofreu grandes perdas. Localizada em Waziriya, teve em sua melhor época manuscritos, periódicos, livros estrangeiros, revistas científicas e humanísticas, teses, monografias e centenas de documentos com artigos. Havia um laboratório com vinte computadores, gráfica, salas de leitura e compartimentos bem-dotados para os pesquisadores. O saque começou com a chegada de soldados americanos e um tanque. A bandeira do Iraque, que tremulava na Academia, foi retirada e, de maneira violenta, horas mais tarde, os saqueadores chegaram dispostos a levar tudo. E assim fizeram. Não deixaram um só computador, escrivaninha, regulador de voltagem ou impressora. Estavam enlouquecidos. À diferença de outros centros intelectuais, a Academia não foi incendiada, mas, de um total de sessenta mil livros, metade se perdeu, além de centenas de publicações que eram enviadas do mundo inteiro em diferentes línguas. As fotocópias não se conservaram e algumas puderam ser resgatadas, sem ordem aparente, em meio ao desastre. Uma política eficaz de intercâmbio manteve vigente a atualização permanente da Academia, o que permitiu aos pesquisadores dispor da melhor informação do planeta.

Quando pedi o catálogo dos livros, me disseram que estava entre os objetos roubados, e portanto o trabalho de classificação seria difícil. Vi algumas salas onde ainda se conservam centenas de livros e documentos, mas a desordem, no entanto, não preocupa nenhum dos acadêmicos, porque pior teria sido perder os textos. A pilha de papéis amedrontaria qualquer especialista em bibliotecas, mas não os homens que sobreviveram a bombardeios, assassinatos e à pilhagem que extraviou os textos inéditos do historiador ’Abbas al-Azawi.

A coleção Dar Saddam li-l-makhtoutat se salvou porque Usama N. al-Naqshabandi, seu diretor, escondeu-a. A Bayt al-Hikma, dedicada à pesquisa de ciências sociais, direito, ciências econômicas e políticas, ficou destruída. Em Mossul, as bibliotecas do museu e da universidade se extinguiram.

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