Book Reviews

09 março, 2006

17) No bunker do Real, por oito anos...

Livro: 3.000 Dias no Bunker
Autor: Guilherme Fiuza
(Rio de Janeiro: Editora Record, 2006, 352 págs. R$ 48,90)

A história de uma virada no fundo da economia brasileira
No bunker, em busca de credibilidade

Por Margareth Boarini
Jornal Valor Econômico, 9 de março de 2006

"Funaro, Bresser, Maílson, Zélia, Marcílio, Krause, Haddad, Elizeu. De 1986 a 1993, Pedro Malan, representando o Brasil no Banco Mundial, no BID e na negociação da dívida, acompanhou os sonhos, a agonia e a queda de cada ministro da Fazenda brasileiro. Tinham sido oito anos e oito ministros. Agora, setembro de 2001, ele completava sozinho oito anos no poder."
A constatação histórica, ao contrário do que pode parecer, não introduz uma biografia de Pedro Malan, ministro da Fazenda nos governos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Presente numa das 331 páginas do livro "3.000 Dias no Bunker - Um Plano na Cabeça e um País nas Mãos", do jornalista Guilherme Fiuza, editado pela Record, aquela frase tenta resumir não apenas a importância de Malan à frente do Ministério da Fazenda, mas também sua credibilidade junto ao mercado financeiro internacional. E, assim, ele emerge naturalmente como personalidade central no relato de uma época em que um grupo de brasileiros tomou a si a missão de imprimir um novo sentido à gestão da economia do país.

A idéia inicial do jornalista era a de realizar uma extensa entrevista com o já ex-ministro Pedro Malan e fazer com que ele destrinchasse todo o processo histórico recente da economia brasileira. Mas as dificuldades no agendamento dessa conversa levaram Fiuza a traçar caminhos alternativos até alcançar seu objetivo maior. Entrevistou várias pessoas, em conversas que renderam mais de cem horas de gravação. A mudança de rota fez bem à obra e lhe conferiu riqueza maior de detalhes.

"Não se trata de uma revisão histórica, apenas de uma olhada pelo buraco da fechadura para um fim de século denso", explica o autor na abertura do livro. O trabalho do jornalista experiente em economia e política, porém, permite mais que esse simples espiar pela fresta da fechadura. O livro é repleto de informações que englobam pormenores da criação da equipe econômica de Fernando Henrique Cardoso e aspectos da transformação que seus integrantes impuseram à vida nacional, passando pelo histórico drible no FMI com relação ao Plano Brady, o ganho de credibilidade junto a investidores estrangeiros, incluindo o fechado Japão, o Plano Real e, mais que tudo, o trabalho de definição e institucionalização da responsabilidade fiscal no Brasil.

"O livro mostra muitos desses aspectos, das idéias novas que traziam para o noticiário da política informações até então restritas ao noticiário econômico e a intenção sempre foi a de retratar o miolo e as entranhas que me chamavam a atenção e que foram as bases do Plano Real. Foi o trabalho de uma equipe que tirou a economia brasileira da clandestinidade", diz o autor.

"3.000 Dias no Bunker" retrata o legado e a proximidade do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco com Malan, mostra quanto foi fundamental Armínio Fraga ter assumido o posto de presidente do BC, apresenta o ex-ministro Pedro Parente como exímio desatador de nós em vários momentos e responsável por apresentar um plano de transição até então sem precedentes na história da República quando Lula foi eleito presidente, além de elencar outros personagens fundamentais para essa época recente da vida brasileira. O livro mostra, também, que o ganho de credibilidade da imagem do Brasil no exterior, perante investidores internacionais, deveu-se muito ao trio Fernando Henrique, Pedro Malan e Gustavo Franco.

Apesar de exaltar o trabalho feito na esfera econômica, o autor não poupa críticas ao governo de FHC. Para Fiuza, o fato de muitas decisões terem sido tomadas com base no recurso da medida provisória era sinal de uma espécie de autoritarismo.

A tão aguardada entrevista com Malan aconteceu apenas seis meses após o início do processo de reportagem que daria vida a "3.000 Dias no Bunker" e serviu para colocar a cereja no bolo. Mostra como o comprometimento com um plano maior e o respeito e a amizade por colegas sempre estiveram presentes na personalidade do homem-forte da economia nacional. Comprometimento que se seguiu até praticamente o início do novo governo, já na época do plano de transição econômica acertado entre Malan e Antônio Palocci, que viria a ser seu sucessor.

"O que a gente pode ver é a continuidade do trabalho dos principais pontos da responsabilidade fiscal, nas áreas monetária e cambial. Na verdade, o Palocci, até por um fator da sua personalidade, e sua equipe herdaram essa credibilidade conquistada pelo Malan no mercado internacional", diz o autor.

Fiuza apresenta ainda, como uma espécie de livro de cabeceira de Malan e Franco, "Meus Primeiros 76 Anos", do economista alemão Hjalmar Schacht, mundialmente conhecido por ter consolidado a economia de seu país, embora tenha trabalhado para Adolf Hitler. Na obra, Schacht prega que atitude ética e força intelectual podem transformar mundos. Para quem enxergar uma analogia negativa, lembrando que bunker lembra quartel-general alemão e supondo, por extensão, que dele podem ter saído apenas decisões impositivas e de qualidade duvidosa para a sociedade, "3.000 Dias no Bunker" mostra que, dependendo da equipe que nele trabalha, podem surgir medidas de avanço econômico importantes.

Numa época em que novas gerações de cidadãos brasileiros já se acostumaram a descobrir os bastidores da política nos anos da ditadura militar, o relato de Fiuza tem outra utilidade: mostra para todos os tipos de leitor como a economia brasileira pôde passar por um processo de transformação que a preparou, em plena democracia, para deslanchar em direção a um processo de desenvolvimento de fato sustentável.

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